Instituto de Constelações Familiares Brigitte Champetier de Ribes / Brasil

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A força do centro vazio

A epistemologia fenomenológica em Psicoterapia, 1999

O assunto da minha palestra é: A força do centro vazio. A epistemologia fenomenológica em Psicoterapia. Já faz anos, descrevi em várias histórias o significado destes termos. Para começar, lhes contarei uma delas. Titula-se: O entendimento.

Um homem deseja sabê-lo, por fim. Sobe na sua bicicleta, vai para o campo aberto e, longe do habitual, encontra outra trilha. Lá não há indicações, e assim confia no que, com seus olhos, vê diante de si, e no que seu passo pode recorrer. Impele-o certa alegria de descobrir, e o que antes era um tipo de pressentimento para ele, agora se torna certeza. Porém depois, a trilha terminará na beira de um rio largo, e o homem descerá da sua bicicleta. Sabe que se ainda deseja continuar, terá que deixar tudo o que leva com ele na beira. Então, perderá seu terreno firme e será levado e impulsionado por uma força que poderá mais do que ele, de maneira que terá que se entregar a ela. E por isso hesitará e retrocederá.

Quando volta novamente para sua casa, percebe que sabe pouco das cosas que ajudam, e que lhe é difícil transmiti-las para os outros. Demasiadas vezes aconteceu-lhe a mesma coisa que um homem que segue outra bicicleta, cujo pára-choque está batendo.

Grita-lhe: - Ei, você! Seu pára-choque está batendo! -Que? -Seu pára-choque está batendo! -Não lhe entendo! -responde o otro- Meu pára-choque está batendo! ‘Algo está errado aqui', pensa. Depois, freia e gira.

Pouco depois, pergunta a um mestre ancião: - Como o senhor faz quando ajuda alguém? Muitas vezes, as pessoas vêm me visitar, pedindo conselho sobre assuntos dos quais somente sabemos pouco. Porém, depois se sentem melhor.

O mestre lhe diz: - Não depende do saber, se uma pessoa se detém no caminho, e não deseja seguir adiante. Porque busca segurança, onde se pede valor, e liberdade, onde a verdade já não lhe deixa eleição. E assim vai rodando em círculos. O mestre, entretanto, resiste ao pretexto e à aparência. Procura o centro, e lá recolhido espera - como alguém que estende as velas diante do vento-, se por acaso lhe alcançar uma palavra eficaz. O outro, ao se aproximar dele, encontra-o lá aonde ele mesmo deve chegar, e a resposta será para ambos. Ambos são ouvintes.

E ainda acrescenta: O centro diferencia-se pela sua leveza.

Epistemologia científica e epistemologia fenomenológica

São dois os movimentos que levam à compreensão. Um deles se estende, pretendendo abranger o desconhecido até possuí-lo e poder dispô-lo. Desta índole é o esforço científico, e sabemos bem o muito que contribuiu para mudar, para garantir e para enriquecer nosso mundo e nossa vida.

O segundo movimento produz-se quando, mesmo durante o esforço de dirigir nosso pensamento, nos detemos e, de algo concreto que poderíamos captar, dirigimos o olhar para um conjunto. Isto é, o olhar está disposto a assimilar simultaneamente o muito que diante dele se estende. Entregando-nos a este movimento, por exemplo, diante de uma paisagem, ou uma tarefa, ou um problema, percebemos como nosso olhar, ao mesmo tempo, preenche-se e esvazia-se. Já que, unicamente podemos expor-nos à plenitude e resistir seu impacto prescindindo dos detalhes. Para isso, detemo-nos no movimento que se lança, afastando-nos um pouco até chegar a aquele vazio capaz de resistir à plenitude e à grande variedade.

Este movimento que se detém e depois se retira, o defino como fenomenológico. Ele nos conduz a outras compressões diferentes do movimento que se lança para o entendimento. Ambos, no entanto, se complementam. Já que, também, no movimento que se estende para o entendimento científico, às vezes, devemos definir-nos para dirigir nosso olhar do estreito ao amplo, e do próximo ao distante. Por outra parte, também a compreensão obtida através do procedimento fenomenológico requer a comprovação no individual e mais próximo.

O processo

No caminho da epistemologia fenomenológica, a pessoa expõe-se à grande variedade de fenômenos diante de um determinado horizonte, sem selecioná-los nem valorá-los. Assim então, este caminho do entendimento requererá que a pessoa se esvazie, tanto em relação às idéias que até esse momento albergada, como também, em relação aos movimentos interiores, seja a nível emocional, voluntário ou de julgamentos. Aqui, a atenção está, ao mesmo tempo, orientada e não orientada, centrada e vazia.

A atitude fenomenológica requer uma disposição atenta para atuar, porém sem passar à realização. Graças a esta tensão, nossa capacidade e nossa disposição para a percepção se potenciam extraordinariamente. Quem conseguir manter esta tensão, decorrido um tempo, experimentará o muito que com seu horizonte abrangerá, irá formando-se ao redor de um centro, e de repente, descobrirá um contexto, talvez uma ordem, uma verdade, ou o passo que lhe levará além. Esta compreensão vem de fora, por assim dizê-lo, é experimentada como um presente e, por regra geral, é limitada.

Livre de intenções

A primeira premissa para a compreensão obtida desta forma é uma atitude desinteressada. Quem guarda as intenções, aborda a realidade com conteúdos próprios, pretendendo, talvez, mudá-la conforme uma imagem preconcebida, ou influenciar e convencer os outros conforme esta imagem. Mas, assim atua como se diante da realidade estivesse em uma posição superior, como se ela fosse o objeto para seu sujeito, e não ao contrário, o objeto da realidade. Aqui, se evidencia a renúncia que nos exige desistir de nossas intenções, inclusive, de nossas boas intenções. Além disso, também, a sensatez exige esta renúncia, já que, como mostra a experiência, aquilo que realizamos com boas intenções e, inclusive, com a melhor das intenções, frequentemente dá errado. A intenção não substitui a compreensão.

Livre de temor

A segunda premissa para esta compreensão é uma atitude livre de temor. Aquele que sente medo do que a realidade mostra, usa antolhos. Aquele que sente medo diante do que as outras pessoas pensarão e farão se ele comunicar o que sente, estará fechando-se diante de qualquer compreensão ulterior. E aquele que, como terapeuta, tem medo de encarar a realidade de um cliente, por exemplo, a realidade de que somente lhe resta pouco tempo, infundirá medo ao outro, porque este perceberá que o terapeuta não está à altura dessa realidade.

A sintonia

Uma atitude livre de intenções e temor permite a sintonia com a realidade tal como é, também com seu lado temível, assustador e terrível. Portanto, o terapeuta está em concordância com a felicidade e a desgraça, com a inocência e a culpa, com a saúde e a doença, com a vida e a morte. Porém, justamente, desta sintonia ganha a compreensão e a força para se enfrentar, também, à fatalidade, e em concordância com esta realidade, às vezes, consegue dar um giro. Referente a isto, também contarei uma história:

Um discípulo dirigiu-se a um Mestre: - Diga-me, por favor, o que é a liberdade! -Que liberdade? – perguntou-lhe o Mestre. A primeira liberdade é a necedade. É semelhante ao cavalo que, relinchando, derruba seu ginete.

Porém, sentirá sua mão depois muito mais forte. A segunda liberdade é o arrependimento. É semelhante ao timoneiro que fica no barco naufragado, em vez de descer para o barco salva-vidas. A terceira liberdade é o entendimento. Ela está depois da necedade e depois do arrependimento. É semelhante à folha que balança com o ar e, porque cede onde é fraca, se sustém.

O discípulo perguntou: - Isto é tudo?

Replicou o Mestre: - Alguns pensam que são eles mesmos quem procuram a verdade de sua alma. Porém, a Grande Alma pensa e procura através deles. Da mesma forma que a Natureza, esta pode permitir-se muitos erros, já que sem esforço substitui os jogadores confundidos por outros novos. A aquele, no entanto, que deixa que seja ela quem pense, às vezes, concede-lhe algum espaço de movimento, e como o rio leva o nadador que se entrega as suas águas, também ela leva-o à beira, unindo suas forças as dele.

Fenomenologia filosófica

Agora gostaria de dizer algo referente à fenomenologia filosófica e à fenomenologia psicoterapêutica. Na fenomenologia filosófica trata-se de perceber o essencial entre a grande variedade de fenômenos, expondo-me a eles por completo, com minha maior superfície, por assim dizê-lo. Este algo essencial surge repentinamente do oculto, como um relâmpago, e sempre supera muito aquilo que eu poderia imaginar ou chegar a entender logicamente, partindo de premissas ou conceitos. Apesar de tudo, nunca é completo. Continua envolvido pelo oculto, como todo ser pelo nao-ser.

Esta foi a atitude que me levou a compreender os aspectos essenciais da consciência, por exemplo, que esta atua como um órgão do equilíbrio sistêmico que nos permite perceber imediatamente se estamos em concordância com o sistema ou não; se aquilo que faço me conserva e garante a pertença, ou se coloca em perigo e menospreza minha pertença. Portanto, neste contexto, a boa consciência não significa outra coisa que: posso ter certeza que ainda pertenço ao grupo. A má consciência significa: devo temer, já que não faço parte do grupo. Assim, então, a consciência tem pouco a ver com as leis e verdades sempre válidas, já que é relativa e variável de grupo em grupo.

Do mesmo modo, também compreendi que a consciência reage de maneira totalmente diferente quando não se trata o direito à pertença tal como acabamos de descrevê-lo, senão o equilíbrio entre dar e tomar, e que ainda reage de outra forma quando zela pelas ordens da convivência. Cada uma destas funções da consciência é controlada e imposta através de diferentes sentimentos de inocência e de culpa.

Entretanto, a diferença mais importante que se mostrou foi a diferenciação entre a consciência que sentimos e a consciência oculta. Assim, justamente, por seguir à consciência que sentimos, atentamos contra a consciência oculta, e mesmo que pela consciência que sentimos nos sintamos inocentes, a consciência oculta castiga este ato como uma culpa. O contraste entre estas duas consciência é a base de toda tragédia, o qual, no fundo, não significa outra coisa do que a tragédia familiar. Esta dissonância conduz àquelas implicações trágicas que no seno da família produzem doenças graves, acidente e suicídios. E, também, é esta diferença a culpada de muitas tragédias relacionais, quando uma relação de casal termina apesar de todo o amor.

 Fenomenologia psicoterapêutica

Agora bem, estas compreensões não podem ser obtidas unicamente através da percepção filosófica e da aplicação filosófica da epistemologia fenomenológica. Ainda pediam mais outro acesso, acesso que eu costumo chamar “o saber participativo”. Este acesso abre-se através do trabalho com constelações familiares sempre que este se realize de forma fenomenológica.

Para configurar a constelação de sua família, o cliente escolhe arbitrariamente, entre um grupo de participantes, os representantes para si mesmo e para os outros membros significativos da sua família, por exemplo, o pai, a mãe e os irmãos. A seguir, centrando-se em sua intuição, posiciona-os em um espaço aberto, relacionando-os conforme sua imagem interior. Através deste processo, de repente, surge algo que lhe surpreende. Isto é, durante o processo de configuração entra em contato com um saber que antes lhe era inacessível. Assim, faz pouco tempo, um colega contou-me que devido a uma constelação evidenciou-se que a cliente tinha que representar uma antiga amiga do pai. Ela perguntou para o pai e para os outros parentes, porém todos a garantiram que estava enganada. Uns meses mais tarde, seu pai recebeu uma carta desde Bielorrússia. Uma mulher que durante a guerra foi seu grande amor, trás uma longa busca conseguiu, por fim, descobrir seu endereço.

Mas esta é somente uma parte, a do cliente. A outra parte é que os representantes, quando já estão configurados, sentem da mesma forma que as pessoas a quem representam. Às vezes, também desenvolvem seus sintomas físicos. Inclusive, vi casos nos quais interiormente ouviam os nomes daquelas pessoas. Tudo isto é vivenciado sem que os representantes tenham nenhuma informação anterior daquela família, unicamente sabem quem representam. Evidencia-se, assim, que entre o cliente e os membros do seu sistema atua um campo de força lúcido que possibilita aceder a um saber sem nenhuma transmissão exterior e, o que é ainda mais surpreendente, que também os representantes, que não têm nada a ver com essa família, nem sabem nada dela, podem conectar com esse saber e com a realidade dessa família.

Naturalmente e de maneira muito especial, o mesmo aplica-se também ao terapeuta; com a única condição de que tanto o terapeuta como o cliente e os representantes estejam dispostos a encarar a realidade que aqui está abrindo caminho, assentindo a ela tal como é, sem intenções nem medos, e sem remontar-se a teorias ou experiências anteriores. Esta seria, então, a atitude fenomenológica aplicada à Psicoterapia. Também aqui, a compreensão está na renuncia, no desprendimento de toda intenção e no assentimento à realidade tal como se apresenta. Sem esta atitude fenomenológica, isto é, sem o assentimento a aquilo que é mostrado sem querer exagerar, nem mitigar, ou interpretar, o trabalho com as constelações familiares não se movimenta além da superfície, caindo no erro com facilidade e carecendo de força.

 A alma

Ainda mais surpreendente que este saber transmitido através da participação, é o fato de que este campo consciente ou, como eu prefiro chamá-lo, esta alma consciente que supera e dirige o indivíduo, procura e encontra soluções que superam muito aquilo que nós podemos imaginar, produzindo efeitos de um alcance inacessível para nossa atuação planificada. Isto é mostrado mais claramente em aquelas constelações nas quais o terapeuta retém-se ao máximo, por exemplo, configurando pessoas importantes para depois, sem nenhuma indicação ulterior, abandoná-las a aquilo que, desde fora, apodera-se delas como uma força irresistível, conduzindo-as às compressões e às experiências que, de outra maneira, pareceriam impossíveis.

Aportar-lhes-ei um exemplo: quando, em uma oficina recente na Suíça, um homem, depois de configurar sua família atual, disse que ainda queria dizer que era judeu, escolheu sete representantes para as vítimas do Holocausto, colocando-os em fila, uns do lado dos outros. Depois, detrás deles, coloquei sete representantes dos assassinos, e pedi às vítimas que se girassem para estes. A seguir, durante quinze minutos, sem que ninguém pronunciasse nem uma palavra, desenvolveu-se um processo incrível entre todos eles, processo que evidenciou a existência de algo assim como uma morte não concluída e uma morte concluída, mostrando claramente que, para as vítimas e para os perpetradores, a morte não se concluía até que nela se encontravam, sentindo-se igualmente determinados, dirigidos e finalmente acolhidos por uma força superior.

 Fenomenologia religiosa

Aqui, os níveis da Filosofia e da Psicoterapia são substituídos por outro, mais extenso, no qual nos experimentamos como expostos a um Todo maior que necessariamente devemos reconhecer como um Último que determina todos. Também, poderia ser chamado nível religioso ou espiritual. Mas, também aqui, mantenho-me na atitude fenomenológica, sem intenções, sem temor, sem condições anteriores, simplesmente com aquele que se mostra. O que isto significa para a compreensão e a realização religiosa, o descreverei no final, em uma terceira história: O retorno.

Alguém nasce na sua família, no seu país e na sua cultura, e já desde criança ouve quem, faz tempo, foi seu modelo e seu mestre, e sente o profundo anseio de se tornar e ser como aquele. Une-se a um grupo de iguais, exercita-se em uma disciplina de longos anos, e segue o grande modelo até ser idêntico a ele, pensar, falar e sentir como ele.

Porém, uma coisa, pensar, ainda lhe falta. Assim empreende um longo caminho para, talvez ainda superar na solidão mais distante, uma última fronteira. Passa por jardins antigos, longamente abandonados. Ainda florescem rosas silvestres e altas árvores trazem seu fruto cada ano, mas este cai no chão sem cuidado por não ter ninguém que o ame. Depois começará o deserto.

Rapidamente, lhe rodeia um vazio desconhecido. Parece-lhe como se aqui qualquer rumo fosse indiferente, e também as imagens, que às vezes vê diante de si, em breve se mostrarão vazias. Caminhará seguindo seu impulso, e quando já fizer tempo que não confie nos seus sentidos, de repente, verá o manancial: brotará da terra, e a terra o receberá novamente. Porém, lá aonde sua água chegue, o deserto transformar-se-á em um paraíso.

Quando olhar ao seu redor, verá dois desconhecidos que se aproximam. Eles fizeram a mesma coisa que ele: da mesma maneira que ele, estes empreenderam um longo caminho para, talvez, superar uma última fronteira na solidão do deserto; e encontraram da mesma forma que ele, o manancial. Juntos agacham-se, bebem da mesma água, e já acreditam que o objetivo está quase conseguido. Depois, trocam seus nomes: - Eu sou Gautama, o Buda. -Eu sou Jesus, o Cristo. -Eu sou Maomé, o Profeta.

Depois, chega à noite e em cima deles, como sempre, brilham as estrelas, inalcançáveis na sua distância e na sua quietude. Todos emudecem, e um dos três se sente perto do seu grande modelo como nunca. Parece-lhe como se, por um momento, pudesse intuir como se sentiria quando o soubesse: a impotência, a inutilidade, a humildade, e como deveria sentir-se se também conhecesse a culpa.

Na manhã seguinte, retorna e sai a salvo do deserto.

Uma vez mais seu caminho o leva pelos jardins abandonados, até acabar em um que é o seu. Diante da entrada está um homem mais velho, como se o houvesse estado esperando. Diz-lhe: - Quem, como você, de tão longe encontrou o caminho de volta, ama a terra úmida. Sabe que tudo, se cresce, também morrerá, e se acaba, também nutrirá. -Sim -responde o outro -estou de acordo com a Lei da Terra.

E começa a trabalhá-la.