Instituto de Constelações Familiares Brigitte Champetier de Ribes / Brasil

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"Eu escolho a vida" a cada hora em ponto

Convidamos você, a cada hora, a criar uma nova vibração ao redor do mundo, dizendo “EU ESCOLHO A VIDA” junto com milhares de pessoas. Todos juntos a serviço da vida.












Hellinger Sciencia

Revista Hellinger, Março 2009.

Ordens do amor entre pais e filhos e dentro do clã

Ordem e amor

O amor preenche a embalagem da ordem. O amor é a água, a ordem é a vasilha.

A ordem recolhe, o amor flui. Ordem e amor atuam em acorde.

Assim como em um canto as notas se adequam às harmonias, O amor amolda-se à ordem. Assim como o ouvido resiste às dissonâncias, mesmo explicando-as, É difícil para nossa alma o amor sem a ordem.

Alguns tratam a ordem como se não fosse mais que uma opinião, sujeita à mudança e à conveniência de cada qual.

No entanto, a ordem nos é predeterminado. Atua, embora não a entendamos. Não a criamos senão que a achamos. Percebemo-la, tal como o sentido e a alma, Pelos seus efeitos.

As diferentes ordens

Dos efeitos, então, deduzimos as ordens do amor e dos efeitos também deduzimos as leis que fazem que no amor ganhemos ou percamos. Assim é como observamos que as relações da mesma índole obedecem às mesmas ordens, por exemplo, a relação de casal. E que relações de outra índole obedecem a outras ordens. Portanto, as ordens do amor diferem entre filhos e pais e as outras relações dentro do clã. São de uma forma particular na relação de casal e de outra forma diferente na relação do casal com seus filhos. E são diferentes também entre nós mesmos e esse todo que nos abrange e que evidenciamos no nível religioso ou espiritual.

Pais e filhos

A primeira ordem do amor entre pais e filhos é que os pais dão e os filhos tomam. Os pais dão o que eles mesmos tomaram anteriormente dos seus pais e o que na atualidade, tomam do seu parceiro/a. Os filhos tomam em primeiro lugar seus pais como pais e em segundo lugar tomam tudo o que, além disso, os pais possam dar-lhes. Em compensação, os filhos dão depois o que receberam dos seus pais a outras pessoas, particularmente aos seus próprios filhos.

Aquele que dá tem a permissão de dar porque antes tomou e aquele que toma tem a permissão de tomar porque depois dará.  Quem chegou primeiro deve dar mais, porque tomou mais. Quem chegou depois deve tomar ainda mais. Posteriormente, quando tenha tomado o suficiente, será sua vez de dar a quem chega depois dele. E desta forma todos, os que dão e os que tomam, integram-se à mesma ordem e seguem a mesma lei.

Esta ordem também é válida para dar e tomar entre os irmãos.  Quem estava primeiro deve dar a quem vem depois e quem chegou depois deve tomar do mais velho. Quem dá, tomou anteriormente e quem toma, deverá dar no futuro. Portanto, o primeiro filho dá aos seguintes, o segundo toma do mais velho e dá aos que o seguem e o mais novo toma dos mais velhos. O primeiro filho dá mais e o filho menor toma mais, pelo que cuidará frequentemente dos pais na sua velhice.

Conrad Ferdinand Meyer descreve de maneira gráfica este movimento de cima para baixo em um poema:

A fonte romana

Ascende o jato e quando cai, rega completamente  o jarro marmorizado da fonte, 
Que por sua vez, envolto em águas, desborda e flui para um segundo jarro;
Este prodiga, de tão inchado, ao terceiro jarro
Sua maré e cada qual ao mesmo tempo toma e oferece, 
Verte e descansa.

Honrar

A segundo ordem do amor entre pais e filhos e entre irmãos consiste em que aquele que toma deve dar a honra a quem lhe deu e ao que recebeu.

Aquele que toma desta forma, alça para a luz o que recebeu até que esse resplendor ilumine a quem deu, mesmo que posteriormente continue fluindo para mais embaixo, como a fonte romana cujo jarro inferior, banhado em águas, espelha o jarro superior e mais além, o céu.

A terceira ordem do amor na família é a ordem de precedência, similar ao dar e ao tomar de cima para baixo, do anterior ao posterior. Por conseguinte, os pais têm a precedência sobre os filhos e o filho mais velho sobre seus irmãos. O rio do dar e do tomar, águas para baixo, assim como o passo do tempo entre antes e depois não podem ser detidos, nem recuar, nem mudar de rumo, nem inverter seu impulso. Portanto, as crianças encontram-se sempre por baixo dos pais, o posterior ficando depois do anterior. O dar e o tomar, assim como o tempo, somente podem fluir para baixo, jamais águas acima.

A vida

Não se trata, referente ao dar e ao tomar dos pais e filhos, de um objeto qualquer senão, essencialmente, do dar e tomar da vida. Ao dar a vida aos seus filhos, os pais obsequiam-nos com algo que não lhes pertence. Porém, junto à vida, oferecem-lhes sua própria pessoa, tal como são sem restar nem acrescentar nada. Por isso, dando a vida desta forma, os pais não podem acrescentar-lhes nada nem deixar nada de lado, nem conservar nada para eles mesmos. E da mesma maneira, ao receber a vida dos seus pais, os filhos não podem acrescentar-lhe nada nem restar-lhe nada nem rejeitar nada do que, com essa vida, lhes cabe. Além da vida recebem os seus pais. Eles são o que seus pais são.

As ordens do amor exigem que o filho tome sua vida tal como os pais a deram, isto é, como um todo e assenta a eles tal como são, sem mais desejos, nem resistências e nem medo.

Esse tomar é um ato humilde, que inclui o assentimento à vida e ao destino, tal como é determinado através dos meus pais, a aceitação dos limites que são assignados e as possibilidades que são abertas, o sim às intrincações no destino desta família, em sua culpabilidade, em sua carga ou sua facilidade, seja o que for.

Podemos sentir em nosso interior os efeitos desse tomar. Sentimos o que acontece quando nos imaginamos ajoelhados diante do pai e da mãe, profundamente inclinados no chão com os braços para frente e as palmas oferecidas ao céu. Dizemos-lhes: ”Honro-os”. Posteriormente nos incorporamos, olhamo-los nos olhos e agradecemos-lhes pelo presente da vida.

A rejeição

Algumas pessoas opinam que algo maléfico poderia grudar-se neles se tomarem seus pais desta forma completa, e isso os assusta. Como por exemplo, uma particularidade dos pais, uma incapacidade, uma culpa. Então, fecham-se também às boas coisas dos pais e não tomam a vida como um todo.

Muitos daqueles que se negam a tomar seus pais de maneira completa, buscam equilibrar essa carência. Aspiram então à realização pessoal e à iluminação. No entanto, detrás destas explorações se encontra a busca secreta do pai e da mãe que não puderam tomar. Porém a rejeição dos pais implica a rejeição de si mesmo e, por conseguinte, uma sensação de cegueira, de vazio e de fracasso na realização.

Algo particular

Falta ainda considerar algo mais. É um segredo. Não posso lhe dar nenhum fundamento razoado. Porém, quando falo sobre isso, sobe em mim um assentimento imediato. Cada um de nós experimenta a presença, em seu interior, de algo particular que não vem dos seus pais. A isso, devemos dizer “sim”. Pode ser algo leve de levar ou algo difícil, algo bom, mas talvez algo ruim. Nós não podemos escolhê-lo. Não obstante, seja o que for que fazemos ou omitimos fazer, a favor ou contra de algo, estamos pegos a serviço de algo, queiramos ou não. Vivenciamo-lo como um dever ou uma vocação que não se radica em nosso mérito, nem tampouco em nossa culpa, ainda se trata de algo difícil ou inclusive cruel. Estamos servindo, qualquer que seja a situação.

As boas dádivas dos pais

Os pais não somente nos dão a vida. Alimentam-nos, educam-nos, protegem-nos, cuidam-nos, oferecem-nos um lar. E convém que o tomemos assim, como o recebemos. É uma maneira de lhes dizer: ”aceito tudo, com amor”. E a seguir, diremos: ”tomo-o com amor”. Essa é uma maneira de tomar que equilibra tudo, porque os pais se sentem respeitados. Então, oferecem com mais vontade ainda.

Quando tomamos assim dos pais, pelo geral é suficiente. Claro que há exceções, todos nós sabemos. Pode ser que não recebamos tudo aquilo que desejamos nem na quantidade que desejamos. Porém, assim é suficiente.

Quando a criança é adulta, diz para seus pais: ”recebi muito e isso é suficiente. Levo tudo para minha vida”. Então, o filho se sente satisfeito e rico. E pode acrescentar: ”o resto, eu o farei”. É uma boa frase, que nos emancipa. O filho diz para seus pais, a continuação: ”Agora os deixo em paz”. Assim, libera-se dos seus pais e, entretanto, os guarda dentro dele e os pais guardam seu filho.

Porém, quando o filho diz para os pais: ”Devem dar-me ainda mais”, então o coração deles se fecha. Já não podem dar com tanta vontade nem podem dar tanto, porque o filho reivindica. Ele mesmo, inclusive quando recebe algo já não pode aceitá-lo, porque se o fizer deve renunciar a suas exigências.

Quando um filho persiste em suas exigências diante dos seus pais, não pode se liberar deles. A exigência prende o filho aos seus pais. E, ao mesmo tempo, essa atadura fará que os perca e os pais também perderão seu filho.

O que é pessoal dos pais

Além do que são e dão, os pais carregam consigo o que ganharam como mérito ou o que padeceram como perda. Isto lhes pertence pessoalmente. Os filhos participam disso de maneira indireta, mas os pais não podem nem têm a permissão para passá-lo aos filhos e os filhos não podem nem têm a permissão para tomá-lo dos pais. Aqui, cada um é o artesão de sua felicidade ou desgraça.

Se um filho se atribuir os benefícios e as aspirações pessoais dos seus pais sem haver proporcionado um esforço próprio nem vivido os obstáculos e a dor do seu destino, é como se reivindicara algo como sendo seu sem pagar o preço por isso.

Quando alguém de uma geração mais recente se encarrega de algo difícil no lugar de outra pessoa de uma geração anterior, o processo vivificador de dar e tomar na família fica contra ele. Isso acontece quando um filho toma a culpa de um dos seus pais, ou uma doença, um destino particular, um compromisso, uma injustiça. A carga pertence à pessoa da geração anterior como parte do seu destino e da sua dignidade, sob sua responsabilidade. E quando ela a aceita e ninguém tira dela, esta carga pode ser fonte de muita força e de muito bem. Pertence à pessoa decidir se depois deseja dar o proveito desse bem a um descendente, esta vez sem exigir o preço que por ele pagou.

Agora bem, se um mais novo se encarregar de um destino difícil em lugar de um mais velho, mesmo que fosse por amor, então se intrometerá um descendente no destino pessoal de um antecedente, restando-lhe, como ao seu destino, força e dignidade. A consequência, resta-lhes a ambos, do proveito das dificuldades, somente o preço a pagar.

A arrogância

A ordem do dar e tomar na família encontra-se de cabeça para baixo quando um mais novo, no lugar de tomar do mais velho e honrá-lo, empenha-se em dar-lhe algo como se fosse igual, ou inclusive superior. Isso acontece quando os pais tomam dos seus filhos e os filhos dão aos seus pais o que estes não tomaram dos seus próprios pais ou do seu parceiro/a. Nesse caso, os pais tomam como se fossem crianças e os filhos dão como se fossem os pais. E o fluir natural do dar e tomar de cima para baixo inverte-se e movimenta-se contra a gravidade de baixo para cima. Um tal dom, da mesma forma que um riacho tentando correr águas acima, não chega ao seu destino.

Há pouco tempo estive em um dos grupos de trabalho, uma senhora cujo pai era cego e cuja mãe era surda. Ambos se complementavam bem. A mulher, entretanto, opinava que era sua vez de cuidá-los. Constelamos a família, da maneira que costumo utilizar para trazer á luz algo oculto. Durante a constelação, a filha comportou-se como se fosse ela a grande e os pais os pequenos, mesmo que a mãe lhe tenha dito: “Eu posso com seu pai” e que o pai lhe tenha dito: ”Eu posso com o da sua mãe e não a necessitamos”. A mulher estava muito decepcionada. Colocaram-na novamente em seu lugar de criança.

Na noite seguinte, não conseguiu dormir e me pediu ajuda. Disse-lhe: “quem não consegue dormir, pensa que deve cuidar de alguém”. Depois lhe contei a história de um jovem que em Berlin, depois da guerra, cuidava do seu irmão morto, para que os ratos não o comessem. O menino estava totalmente esgotado por zelá-lo. Um homem amável aproximou-se dele e lhe disse: ”De noite, os ratos também dormem”. O menino dormiu. E na noite seguinte, a mulher também dormiu melhor.

Quando um filho infringe a ordem de precedência no dar e tomar, se castiga muito, frequentemente com o fracasso e a queda e sem reconhecer a culpa e o vínculo com a infração. Ao dar e tomar de maneira inapropriada, infringindo a ordem embora seja por amor, o filho não percebe sua arrogância e pensa que faz bem. Mas a ordem não se deixa dominar pelo amor. Porque antes do amor atua em cada alma um órgão de equilíbrio que ajuda as ordens do amor na manutenção da sua harmonia e justiça, mesmo que seja o preço da felicidade e da vida. Portanto, a luta do amor contra a ordem é o início e o fim de todas as tragédias e somente existe uma válvula de escape: compreender a ordem e segui-la com amor. Compreender a ordem é sabedoria e segui-la com amor é humildade.

A comunidade de destinos

Pais e filhos constituem juntos uma comunidade de destinos onde cada qual é dependente do outro em muitos aspectos e onde cada um deve contribuir, em função das suas possibilidades, ao bem comum. Aqui, todos dão e tomam. Os filhos inclusive dão aos pais, por exemplo, quando cuidam deles em sua idade madura e com todo direito os pais esperam e tomam dos seus filhos.

O clã

A segunda relação importante para nós é aquela que surge da relação com nossos pais, já que não somente pertencemos aos nossos pais senão que, além de pertencermos aos seus clãs respectivos, somos do clã constituído pelos de ambos os pais.

Um clã comporta-se como se estivesse segurado por uma força que une todos os membros, assim como por um sentido interno de equilíbrio e ordem que atua em todos os membros igualmente. Aquele indivíduo que esta força vincula ao grupo e que esse sentido tem em consideração, pertence ao clã. E aquele indivíduo que esta força descarta e que esse sentido não ampara mais, deixa de pertencer ao clã. Portanto, é possível detectar, pelo alcance da força e do sentido interno, quem pertence a isso.

Em regra geral, são parte do clã os que vêm a seguir:

  • O filho e seus irmãos, mortos ou nascidos mortos, abortados ou abandonados.
  • Os pais e seus irmãos, os mortos, os nascidos mortos ou abortados assim como os filhos nascidos fora do matrimônio e os meio irmãos.
  • Os avós.
  • Às vezes, inclusive, um ou outro dos bisavôs.
  • Pertencem também pessoas sem relação de sangue, entre outros aqueles que fizeram lugar para alguém no clã, por exemplo, os casais anteriores dos pais ou dos avós assim como todos os que, com sua infelicidade ou morte, trouxeram vantagem a alguém no clã.

A vinculação pelo clã

Os membros do clã estão vinculados entre si como se compartilhassem uma comunidade de destinos na qual o destino difícil de um deles afeta a todos e os induze a querer compartilhá-lo. Quando, em uma família, um filho morre precocemente, algum dos seus irmãos deseja segui-lo. Às vezes, inclusive os pais ou os avós querem morrer para seguir um filho ou um neto morto. Quando um membro de um casal falece, o outro frequentemente deseja segui-lo. Interiormente, os vivos dizem ao morto: ”Eu segui-lo-ei na morte”. Muitos daqueles que têm uma doença que ameaça sua vida, câncer, por exemplo, ou que têm acidentes graves, ou que tentam se suicidar, encontram-se sob a pressão do vínculo de destinos e do amor cego, dizendo em seu interior: ”Segui-lo-ei”.

A isso se acrescenta a fantasia de que um pode substituir o outro, isto é, encarregar-se do sofrimento, expiação e morte d outro, liberando-o de um destino trágico. A frase interna que atua detrás desse comportamento é: ”Melhor eu que você”. Quando uma criança vê que um membro do seu clã está gravemente doente, dirá em seu interior: ”Melhor eu doente que você”. Ou quando uma criança vê que outro leva uma culpa grave em cima, pela qual deve expiar, dirá então: ”Melhor eu expio antes que você”. Ou quando uma criança vê que alguém próximo deseja partir ou morrer, dirá em seu interior: ”Melhor eu desapareço antes que você”. O chamativo nisso é que são os mais jovens os que desejam substituir outra pessoa no sofrimento, expiação ou morte, isto é, as crianças, mas também é dado dentro dos casais.

Percebemos, no entanto, que este processo se desenvolve de maneira amplamente inconsciente, sem que os envolvidos possam percebê-lo, nem os que atuam de substitutos nem os que supostamente se beneficiam dessa ajuda. Entretanto, aquele que conhece os vínculos entre destinos, pode liberar-se deles. Nas constelações familiares, esses vínculos aparecem com uma clareza espetacular.

A integridade

Estreitamente unida à vinculação se encontra a preservação da integridade dentro do clã. Isto é, um sentido interno de ordem, presente em cada membro do grupo de uma maneira potente zela para que cada qual, pertencente ao clã, fique, inclusive, além da morte. O clã abrange tanto os vivos como os mortos, geralmente até a terceira geração, mas, às vezes, também até a quarta ou quinta geração. Quando um membro se perde para o clã, seja porque lhe foi retirada a pertença, seja porque foi esquecido, cresce dentro do clã uma necessidade irresistível de recuperar a integridade perdida. E isto se produz quando um membro perdido é representado e trazido à vida por um descendente, através de uma identificação.

Este processo desenvolve-se também no nível inconsciente, levando a carga de restabelecer a integridade em primeira linha às crianças. Dar-lhes-ei um exemplo característico nesse sentido.

Um homem casado apaixona-se por outra mulher e disse para a sua: ”Não quero saber nada mais de você”. Se tiver filhos com sua nova esposa, um deles representará a primeira mulher, lutando contra o pai e com o mesmo ódio que a mulher abandonada sente, ou talvez se afastando do pai com a mesma tristeza que ela leva. Porém, tanto a criança como os pais, ignora que ele a está “lembrando” e validando.

A responsabilidade no clã

No clã vimos que os inocentes respondem pelos culpados. Assim, a injustiça para o mais velho ou a injustiça do mais velho transforma-se em algo bom e equilibrado pelo mais novo. Mais que todas as pessoas, as crianças são clamadas primeiramente, por uma instância superior, para reestabelecer o equilíbrio. Isto é devido a que, dentro do clã, reina uma ordem de precedência que impõe ao ancestral estar antes que o descendente e ao descendente servir ao que é mais velho, deixando que o descendente seja sacrificado para o bem-estar do ancestral. Referente ao reestabelecimento do equilíbrio, não existe equidade no clã como é o caso entre iguais.

Um direito igual de pertença

Entretanto sim existe no clã uma lei de base que outorga a todos igualmente o mesmo direito à pertença. No entanto, em muitas famílias, alguns membros se veem reusado esse direito. Quando um homem casado tiver um filho fora do casamento, algumas vezes sua esposa dirá: ”Não quero saber nada desse filho, não pertence aqui”. Ou quando uma pessoa da família teve um destino difícil, como a morte no parto, isso assustará os outros membros que a deixarão marginada, como se não fizesse parte do todo. Ou quando um membro tiver um comportamento discrepante, dirão para os outros: ”É uma desonra para nós, já não é dos nossos”.

Na prática, muita da moral presuntuosa implica que um diz para o outro: ”Temos mais direito à pertença que você” ou bem “Você tem menos direito a pertencer que eu” ou então “Apostou seu direito à pertença”. Ser bom não significa nada mais que “Eu tenho mais direito” e ser mal significa “Você tem menos direito”.

Para as crianças mortas ou nascidas mortas é negado frequentemente esse direito, pelo fato que as esquecemos. É possível também que os pais deem a uma criança nascida depois o nome do irmão morto. Com isso dizem para a criança morta: ”Já não pertence aqui, temos um substituto para você”. A criança morta perde até seu nome.

Quando os membros do clã negarem a um ancestral o direito à pertença por algum dos motivos mencionados, algum descendente, sob a pressão do seu sentido interno de equilíbrio, imitá-lo-á e identificar-se-á com ele, sem perceber e sem poder defender-se disso. Toda rejeição de um membro faz surgir no clã um impulso irresistível para a busca da integridade perdida e a compensação da injustiça, com alguém imitando e representando o excluído. Isso tem relação com que membros que sobrevivem a alguém morto prematuramente vivam frequentes um sentimento de culpa, porque lhes parece injusto estar vivos. Para compensar a injustiça, restringem sua vida, mas não entendem o porquê.

No clã rege uma ordem arcaica que incrementa a desgraça e a dor em vez de impedi-los. Quando, sob a pressão de uma necessidade cega, um descendente desejar compensar retroativamente um sucesso do passado em vez do seu ancestral, então o mal não terá fim. Esta ordem conserva sua força enquanto permanece inconsciente. Porém se vier à tona, poderemos realizar seu propósito de outra maneira e sem as consequências dolorosas. Então, outras ordens intervirão no processo que, relacionadas com a compensação, darão aos descendentes os mesmos direitos que aos seus antepassados. Chamo essas ordens, as ordens do amor. No entanto, ao contrário do amor cego que busca responder o difícil com o difícil, este amor é sábio. Compensa de um modo curador e dá um fim a dor, com algo bom.

 Entendê-lo-ão com alguns exemplos. Primeiramente referente á frase: “sigo-o” e posteriormente “Melhor eu que você”. Quando alguém disser essas frases interiormente, pedir-lhe-ei que as pronuncie em presença da pessoa interessada, á qual deseja seguir ou para a qual está disposta a sofrer, expiar ou morrer. Ao olhar para esta pessoa nos olhos, já não consegue dizer a frase porque percebe que esta pessoa também ama, e que não pode aceitar aquela proposta. O próximo passo será poder dizer para a pessoa: ”Você é o grande e eu o pequeno. Inclino-me perante seu destino e aceito o meu, assim como me cabe. Dê-me sua bendição se eu ficar e se o deixar ir - com amor”. Assim, encontrar-se-á vinculado a esta pessoa com um amor muito mais profundo, tendo abandonado o desejo de segui-la ou de encarregar-se do seu destino.

E aquela pessoa transformar-se-á em um protetor amável em vez de ameaçar a felicidade do seu descendente.

Quando alguém desejar seguir um morto, por exemplo, um irmão morto precocemente, então poderá dizer-lhe: ”É meu irmão, respeito-o como meu irmão. Tem um lugar em meu coração. Inclino-me perante seu destino tal como foi e mantenho-me fiel ao meu destino, tal como é”. Com isso, os mortos aproximar-se-ão dos vivos e cuidá-los-ão com amor em vez de que os vivos vão para os mortos.

Se acaso uma criança se sente culpada por estar em vida quando seu irmão está morto, pode dizer-lhe: ”Querido irmão ou irmã, você está morto, eu continuo vivo um pouco mais, depois morrerei”. Então se acaba a arrogação referente ao morto e graças a isto, a criança viva poderá continuar com sua vida sem sentir culpa.

Quando um membro do clã viu-se excluído ou esquecido, pode recuperar-se a integridade do grupo reconhecendo e respeitando o excluído. Isto é, primeiramente, um processo interno. Posteriormente, uma segunda esposa poderia dizer para a primeira: ”Você é a primeira, eu a segunda. Reconheço que fez lugar para mim”. Se a primeira mulher foi prejudicada de alguma forma, a segunda pode acrescentar: ”reconheço que sofreu um mal e que tenho um marido a suas custas”. Pode acrescentar: ” Por favor, seja amigável comigo se eu tomar meu marido e o guardar, e seja amigável com meus filhos”. Nas constelações, podemos ver quanto o rosto da primeira mulher se relaxa ao mesmo tempo em que assente, porque se sente respeitada. Com isso, a ordem está restabelecida e nenhuma criança precisa representá-la.

Lá onde reinam as ordens do amor, acaba-se a responsabilidade do clã para as injustiças ocorridas, porque a culpa e suas consequências permanecem com quem lhes correspondem e, em vez da cega necessidade de compensação pelo mal, gerando mais e mais dor, impõe-se a compensação pelo bem. Isto acontece quando os mais novos tomam dos mais velhos, qualquer que seja o preço, e quando os honram sem questionar o que tenham feito, e quando o passado, bom ou mau, pode permanecer no passado. Os excluídos recebem então o direito à reintegração e, em vez de causar-nos angústia, nos dão sua bendição. Ao conceder-lhes um lugar em nosso coração, que lhes corresponde, encontramo-nos em paz com eles e nos sentimos completos e inteiros por ter conosco a todos aqueles que nos pertencem.